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quinta-feira, março 10, 2016

Ecopista Guimarães – Fafe: longe da vista, longe do viajante

Este artigo faz parte de um conjunto de textos sobre as Ecopistas de Portugal – projecto para o desenvolvimento de caminhos para bicicletas e peões através do aproveitamento de linhas ferroviárias desactivadas – servindo como base para uma análise mais aprofundada do potencial destas infraestruturas. Discute-se o seu uso do ponto de vista da bicicleta e não ferroviário.

Casas, campos agrícolas e um acesso privilegiado

Chegando à estação de comboios de Guimarães, esperava encontrar algum vestígio da linha que até 1986 dali partia em direcção a Fafe. A estação fora entretanto substituída por uma nova, construída mais à frente, terminando agora numa parede de betão atrás da qual um parque de estacionamento automóvel e uma rotunda separam a moderna infra-estrutura de um terreno verde de erva pujante, onde só a ausência de edifícios deixa imaginar que por ali, em tempos, terá passado um comboio.

A Ecopista de Guimarães faz parte do Plano Nacional de Ecopistas criado em 2001 pela então REFER Património, gestora da rede ferroviária, agora denominada IP Património. O plano foi criado “tendo em vista a requalificação e reutilização das linhas e canais ferroviários sem exploração”, pode ler-se no site da empresa, onde o trajecto entre Guimarães e Fafe é anunciado como parcialmente concluído – de um total de 21 quilómetros, pouco mais de 14 estão finalizados.

Entrada pelas traseiras


No posto de turismo da cidade que foi a primeira capital do país explica-se como chegar ao local onde a via começa. Os mapas disponíveis para oferecer aos visitantes estão circunscritos a uma zona mais central da cidade e o guia precisou de recorrer a um exercício de imaginação para me ilustrar o que faltava do caminho. Perguntei o que tinha acontecido à parte da linha que saía da estação e atravessava a cidade antes de começar a subida à Penha. “Já não existe”, foi a resposta dada num tom simpático, como é tudo aqui.

A Penha é o nome do monte que os primeiros quatro quilómetros de linha serpenteavam para alcançar o seu topo, cerca de 150 metros acima da estação, deixando para trás a cidade e, ao mesmo tempo, proporcionando uma vista panorâmica sobre ela. Um artigo publicado na revista Ilustração Portugueza aquando da inauguração da linha em 1907, dá conta do que se podia observar à época:

Sae esta nova linha da estação de Guimarães agarrando-se ao magestoso monte da Penha, encimado com a estatua de Pio IX e um pittoresco hotel, e, durante quatro kilometros, sempre subindo, vae-nos mostrando soberbos panoramas que se estendem desde a cidade de Guimarães até às alturas do Sameiro. Rodeado um contraforte do monte da Penha, entra-se então no extensissimo valle de S. Torquato.
Vista para o Vale de São Torcato

Hoje, este troço do percurso faz-se por uma alternativa menos sonante, a antiga Estrada Nacional 101, que foi transformada nas ruas Padre António Caldas e da Cruz da Argola depois de construída a sua variante. Tem a vantagem de encurtar a distância e os senões de ser mais íngreme e de ter trânsito motorizado pouco afeito à partilha com ciclistas. A vista até pode ser boa mas a falta de sinalização que indique o início da ecopista e o movimento rodoviário constante convidam pouco à contemplação. A primeira indicação da “pista de cicloturismo” aparece somente para assinalar a saída desta estrada, voltando a surgir a partir daqui sempre que é necessário mudar de direcção. Quando em recta, mesmo passando por rotundas e outras junções, não há qualquer placa indicativa, o que só aumenta a ansiedade do ciclista durante a subida... ter-me-ei enganado no caminho?

É nas traseiras de uma fábrica do sector têxtil que se entra na ecopista, assinalada com um pórtico metálico de dimensão um tanto ou quanto exagerada, como que tentando devolver o prestígio a algo importante, sem dúvida, que porém se esconde nas traseiras de uma fábrica. Rapidamente se esquece tudo isto quando se olha para o vale que preenche a paisagem à esquerda.

Chamar-lhe “pista” adequa-se, mas não devia


A construção desta linha de comboio tornou-se viável financeiramente após uma revisão do traçado que permitiu eliminar dois túneis inicialmente previstos. O plano nunca concretizado era, a partir de Fafe, fazer a ligação com as linhas do Tâmega e do Corgo, aproximando o Minho e Trás-os-Montes, até à cidade de Chaves.

Após o encerramento do serviço ferroviário, a Câmara Municipal de Fafe foi a primeira a converter o canal em pista de cicloturismo, como lhe chamam na placa que assinala a sua inauguração em 1996. Seguiu-se-lhe o município de Guimarães, três anos depois, que a completou até ao local onde ainda hoje principia.

Em bom estado de conservação está o asfalto, que é acompanhado por uma linha branca que percorre todo o trajecto, um traço continuo que dificilmente cumpre a função de proibir a transposição da via de circulação porque, numa faixa com estas características, tal regra é desnecessária e até contraditória desde logo porque é partilhada por ciclistas e peões, recomendando ultrapassagens com alguma distância lateral. Uma despesa em tinta que poderia ser poupada sem que a segurança dos utilizadores fosse afectada.

Nalguns troços vemos rails de protecção lateral iguais aos das autoestradas, estes sim uma ameaça à segurança dos ciclistas. O que é bom para os automobilistas, como estes são, pode transmitir uma falsa sensação de segurança a quem tem o corpo exposto em caso de embate ou queda e estes rails, que deveriam ser almofadas, são antes facas sem gume.

Rail de protecção lateral e pórtico
Cruzamento com uma estrada











Um trabalho realizado pela Universidade do Minho em 2001 aponta todos estes pormenores, colocando a tónica na segurança dos ciclistas e na sua fruição do percurso – aspectos que se interligam, obtendo-se um por via do outro. No artigo são referidas medidas que permitiriam transformar este canal num verdadeiro corredor verde, o que, apesar de algumas melhorias, ainda está por concretizar. Percebe-se que a escolha das protecções laterais teve como principal preocupação impedir o acesso de veículos motorizados à ecopista mas, conspicuamente, todos os equipamentos obedecem a uma linguagem rodoviária e não de ciclovia, como também é notado nesta passagem:

Estes elementos estruturantes (...) não devem reflectir o aspecto, dimensões, ou tipo de material usados standardizadamente nas estradas. Deve-se implementar uma imagem própria à ciclovia (...). A título de exemplo, as velocidades inerentes a velocípedes justificam sinais de menores dimensões, que não têm que ser de tão rápida percepção como a sinalização de estrada.

Tudo isto se torna pouco importante quando se olha em volta a vista imensa. É, todavia, justamente esse o motivo que deve orientar a escolha de soluções, permitindo uma distracção segura e desejável em vez de iludir na segurança ou fantasiar com estradas como as dos automóveis, como se as vias para bicicletas fossem uma brincadeira infanto-juvenil. Nunca foram.

Estação de Paçô Vieira, concelho de Guimarães
Estação de Cepães, com esplanada, concelho de Fafe











O que pode ser melhorado


A remeter para algum outro imaginário que não o de uma via para ciclistas e peões, a ecopista deverá valorizar o património ferroviário e relembrar ao viajante a história deste canal e o porquê dele existir. Dificilmente se cortariam montanhas e fariam taludes, túneis e pontes como aqui se fosse para criar de raiz um corredor verde. Esta via e o seu suave declive existem porque em tempos passaram por aqui comboios fumegantes.

Ciclovia do Parque da Cidade, Fafe
Contudo, para dar maior coerência a esta via, é necessário prolongá-la em ambos os sentidos. Se em Fafe a ecopista já tem continuação através de uma ciclovia que convida a entrar na cidade, penetrando no parque verde até chegar a uma praça central, poderia daí continuar cumprindo o projecto original de ligar a Chaves e aproximar o Minho e Trás-os-Montes.

Do lado de Guimarães, duas opções estratégicas: prolongar a pista até à estação de comboios pelo troço original e, enquanto isso não é feito, melhorar a sinalização a partir do centro da cidade. Vamos por partes.

A primeira impressão com que se fica, olhando para o edificado, é que o canal ferroviário foi ocupado pela expansão urbana, o que também é sugerido pela demolição de um antigo apeadeiro nesta zona. Felizmente, olhando atentamente para a vista de satélite e confrontando-a com um antigo mapa, percebe-se que o corredor permanece livre, nuns casos abandonado às ervas, noutros transformado em arruamentos, como é o caso da Avenida Rio de Janeiro. A engenharia do início do século XX tem tudo para poder voltar ao serviço, proporcionando agora uma suave subida aos ciclistas.

O troço entre a estação e o início da ecopista em Guimarães, a tracejado. Fonte

De acordo com as normas de sinalização vertical, uma placa cor-de-laranja, como a que indica a pista de cicloturismo, refere-se a equipamentos desportivos e estes, normalmente, existem num lugar concreto, como um hipódromo, um autódromo ou um ringue de patinagem. Contrariamente a esses equipamentos, esta pista de cicloturismo une duas cidades por meio de uma via sem tráfego motorizado e isso deveria estar inscrito na sinalética, com outra cor de fundo e, sobretudo, contendo a informação da localidade para onde segue e a respectiva distância, fundamental para quem se desloca de bicicleta.

Uma humilde sugestão gráfica do que pode estar inserido na sinalética

Enquanto esta pista for tratada como um equipamento desportivo e não como uma via de circulação, ficará por explorar o potencial turístico e patrimonial que a Ecopista Guimarães – Fafe em si contém. Ligá-la à estação de comboios trará mais visitantes, desde que devidamente anunciada e sinalizada, na estrada e nos mapas. Continuá-la de Fafe até Chaves, através de um corredor verde, deve ser visto como um investimento estratégico e o corolário de uma ideia com mais de 100 anos.


 
A última viagem do comboio

 A ecopista actualmente

quinta-feira, junho 19, 2014

Estudante, vem devagar

Texto originalmente publicado na revista B - Cultura da Bicicleta nº7, de Junho 2013.
 
Ponte móvel em Roterdão, Holanda

Estudante, vem devagar
Uma história sobre como voltar de Erasmus sem dar por isso, atravessando a Europa de bicicleta.
 
O programa Erasmus que se popularizou nas últimas décadas tem dado a jovens universitários a possibilidade de viver até um ano fora do seu país e desfrutar da vida como se não houvesse ano seguinte. Filmes como A Residência Espanhola celebrizaram esse período quase sabático mostrando como é bom, por vezes, estar longe da família e das redes de proximidade, sentir-se livre e evitar confrontos constantes com o que é expectável de cada um. O Erasmus vem com prazo definido, para deixar claro desde o início que a vida louca e boa não durará para sempre, por mais que se tente prolongá-la um pouco mais. Foi enquanto tentava adiar o regresso que decidi voltar da Dinamarca em bicicleta, no verão de 2005. A história que aqui conto começa no fim desse ano vivido fora e é sobre um regresso demorado, cheio de pressa de viver.

Depois de 11 meses passados a absorver informação nova a um ritmo quase diário, o meu cérebro acabou por se habituar a esse frenesim e terá achado que seria um desperdício voltar de avião, perdendo a oportunidade de ver cá em baixo tudo o que existe entre aeroportos. Atravessar a Europa de bicicleta pareceu-me, então, a solução para os meus problemas. Havia feito dois anos antes uma travessia semelhante, aproveitando as vantagens de um outro programa europeu, o Interrail, e ficara-me a ideia de que a densidade habitacional deste continente deixava no terreno e na paisagem a sensação de quase nunca estarmos sozinhos ou isolados, fazendo desta travessia em solitário algo menor que uma aventura.

Estrada nacional na Dinamarca que segue até à fronteira com a Alemanha

A Europa não tem o exotismo de outras paragens, sobretudo para um europeu, mas atravessá-la de bicicleta, imbuído num espírito de união fraterna entre nações e povos irmãos, que à época estava muito em voga, transportava em si uma ideia de road trip num contexto que nunca se torna muito distante das nossas referências – tudo tem um termo de comparação relativamente fácil e imediato, tudo se assimila facilmente deixando o viajante disponível para outras aventuras que não esbarrem no primeiro e mais elementar desafio de interpretação cultural. Além disso, um ano passado em Erasmus faz-nos criar uma rede de amigos espalhados pelo continente e esta viagem serviu também para visitá-los nas suas cidades de origem.

Tenho que ser honesto: a viagem não foi ultra bem planeada, não era isso que procurava naquele momento. Em vez de rotas cuidadosamente estudadas, locais de dormida e refeições, o que me apetecia era pegar na bicicleta e voltar para casa como se voltasse do trabalho. Uma espécie de commuting mais longo, de 20 dias, com paragens para visitar amigos. Para isso foi necessário enviar toda a tralha por correio de modo a poder viajar apenas com o essencial.

A aldeia de Garrelsweer, Holanda, organiza a cada dois anos uma festa temática

Dinamarca

É difícil dizer que optei por usar a bicicleta que me acompanhou durante todo o ano, pelo simples facto de nunca ter considerado outra possibilidade. Eu não deixava de ser um estudante com limitações orçamentais num país de preços altos e o meu veículo, comprado em segunda-mão, não deixava de ser uma bicicleta de supermercado, que lá são melhores do que as de cá, embora conservem o estatuto de opção barata e de gama baixíssima.

As hesitações fizeram-me partir às quatro e meia da tarde. Deixei a residência em Aarhus onde vivi durante o ano anterior com destino a Kolding, onde ficaria em casa de um amigo. Arrancar àquela hora tardia obrigou-me a gerir muito bem o tempo e o esforço para evitar chegar de noite, muito embora o céu não escureça totalmente no verão dinamarquês durante as breves horas em que o sol se desloca abaixo da linha do horizonte. É assim que se cura a ressaca dos invernos longos naquele país, com horas de sol abundantes no verão, sem estores nas janelas, muitas vezes apenas com cortinas brancas, e acordando ao som do chilrear dos pássaros às três e meia da manhã, o que ganhava contornos mais irritantes que bucólicos quando isso coincidia com a hora a que me deitava.

Até à fronteira com a Alemanha segui pelo caminho mais directo, a estrada nacional, onde quase sempre existe sinalização para ciclistas e uma berma larga para circular. A alternativa, mais bonita, era uma das ciclovias integradas na rede nacional daquele país que atravessam a paisagem por zonas onde a civilização, embora nunca longe, não invade o nosso campo de visão de forma tão constante. A Dinamarca é conhecida por ser um país plano, o que na realidade se traduz como sendo uma espécie de Alentejo, ou um constante subir e descer ligeiros que evitam a monotonia.

Estrada agrícola na Holanda

Alemanha

Sente-se a cada esquina, em cada serviço e apoio prestado ao viajante, que a Alemanha é um país de gente habituada a viajar. No Reisezentren, um balcão que existe em todas as estações de comboios, ninguém estranhou quando pedi para comprar um bilhete até Emden com paragem em Bremen, onde planeava passar umas horas para conhecer a cidade. Viajar com uma bicicleta permite-nos chegar a qualquer sítio e conhecê-lo de uma ponta à outra em poucas horas, essa foi uma das descobertas que fiz neste regresso a casa.
Emden fica numa região fértil próxima da fronteira com a Holanda, junto ao golfo do Dollart, onde os caminhos agrícolas, feitos com placas de betão armado, estão integrados em rotas cicláveis com infografia disponível num mapa dedicado ao cicloturismo, à venda numa livraria perto de si.

Ciclistas e ovelhas cruzam-se num caminho agrícola junto à baía de Dollart, Alemanha

Holanda

A próxima vez que alguém falar na Holanda como um país perfeito para andar de bicicleta, lembre-se disto: fazer muitos quilómetros numa paisagem plana é absolutamente fastidioso. Tal como me disse uma amiga húngara que fez Erasmus em Lisboa, “agora que voltei a Budapeste percebi que aqui tenho de estar sempre a pedalar”. Pois é, as colinas também descem. Disseram-me que a costa holandesa é bonita, mas atenção, o caminho que segui não era feio, apenas plano. Qualquer vantagem que se associe a um chão plano fica sem efeito perante um vento frontal, é como subir uma montanha sem as vantagens de ver a vista lá em cima.

Em Roterdão encontrei-me com amigos de Lisboa que estavam a fazer um curso de verão e, apesar de sermos da mesma cidade, naquele momento vínhamos de cantos opostos da Europa. É difícil a um português, quando sai do rectângulo por algum tempo, disfarçar o sentimento emigrante que exalta dentro de si, apelando à cultura popular da diáspora. Foi com eles que conheci a canção de Graciano Saga que inspirou o título deste artigo, “Vem Devagar Emigrante”, a história de um regresso a Portugal que acaba em tragédia numa estrada de Espanha servia-nos de mote jocoso à experiência de estar fora do país. A Holanda é tão perfeita que chateia, até a natureza foi domesticada. Nada como uma canção dissonante para lhe dar harmonia.

Ferry-boat que atravessa a baía do Dollart, na fronteira entre a Alemanha e Holanda

Bélgica

Segui para Antuérpia, a cerca de 100 km de Roterdão, atravessando várias vezes a fronteira em Baarle-Nassau, um município onde a linha imaginária que separa as duas nações não é uma recta saída do Romantismo mas sim o resultado de vários tratados medievais que criaram enclaves belgas e holandeses dentro da fronteira maior entre os países. Vale a pena espreitar a história do local. De resto, atravessei a Bélgica com pressa de chegar à cidade francesa de Lille no 14 de Julho, grosso modo, o 25 de Abril da França.

Fronteira entre a Bélgica e a Holanda em ciclovia

França

A partir daqui comecei a usar a bicicleta apenas para conhecer as cidades onde fui parando. O país é grande e os problemas mecânicos começavam a surgir. Em 2005, as carruagens dedicadas para transporte de bicicletas nos comboios franceses ainda eram novidade, pelo que aproveitei para experimentar o serviço. Sabia também que essa facilidade desapareceria assim que atravessasse os Pirenéus.

Cidade de Gent, na Bélgica

Espanha

A minha bicicleta cruzou a Europa, levou-me a conhecer Barcelona em poucas horas e depois foi roubada. Um triste final que, contudo, resolveu o problema que seria transportá-la de comboio até Lisboa, implicando desmontar e guardá-la num saco próprio para transporte, que não tinha. A canção de Graciano Saga cumpriu-se uma vez mais, a tragédia aconteceu a um português em trânsito numa cidade espanhola e com ela foi-se a esperança de trazer aquela bicicleta para Lisboa.


terça-feira, abril 01, 2014

Aprender a pedalar - como se ensina e como se aprende a andar de bicicleta

Texto originalmente publicado no Jornal Pedal nº 11, de Dezembro 2012. Apesar da idade do mesmo o conteúdo mantém-se actual, salvo nas condições que cada escola aqui retratada disponibiliza para os seus cursos. Confirmem nos links abaixo a oferta em vigor. À data (a de hoje) sou formador na Escola BK.

Cortesia The Online Bicycle Museum


Manobrar uma máquina requer conhecê-la para lá do seu manual de instruções. Implica mais do que usar a lógica. Adquire-se com a prática. Quem ensina e quem aprende a andar de bicicleta sabe que é assim, um exercício de experimentação motora e de expulsão de receios que bloqueiam o acesso à experiência. Tudo isto se consegue mediante algumas premissas, ou antes, tudo fica mais fácil quando elas estão reunidas.

Quem escreve esta reportagem é também instrutor de condução de bicicleta, o que pode levantar algumas questões sobre o puxamento da brasa a uma sardinha que começa a dar as primeiras pedaladas como área de negócio. Creia o leitor que é uma tarefa exigente, esta de quem escreve, conquanto traz consigo a possibilidade de explorar nuances e subtilezas só ao alcance dos que conhecem o terreno e a experiência que aqui se conta.

Decidir

Muitas são as razões que levam alguém a adiar o momento em que se aprende a descolar os pés do chão e a ganhar controlo sobre um mecanismo simples, porém simbiótico, que alicerça uma nova forma de contacto entre o chão e o nosso corpo. Substituir os pés pelas rodas e o pavimento pelos pedais está ao alcance de todos os que sentem motivação para experimentá-lo. Sem isso, nada feito. A vontade antecede tudo, mesmo os pânicos de última hora que podem levar a algumas desistências ou a novos adiamentos.

Nos últimos 6 anos surgiram cursos para ensinar a pedalar e procura não tem faltado. A Escolinha da Bicicleta, do Núcleo Cicloturista de Alvalade, em Lisboa, foi a primeira a oferecer o serviço, uma ideia que surgiu depois de lhes ser concedido um espaço no Complexo Desportivo Municipal de São João de Brito, passando o colectivo a dispor de um ringue de jogos onde desde 2006 ensinam. Começou como uma “carolice”, diz-nos o presidente e instrutor João Santos: “ninguém estava à espera que alcançássemos o número de alunos nem os efeitos práticos que daí resultaram”. A procura destes cursos é geralmente antecedida de outras tentativas frustradas, a solo ou com a ajuda de familiares e amigos.

Rui Pratas é o instrutor da Pedalnature e há dez anos deu-se conta de que algumas amigas suas não sabiam andar de bicicleta, oferecendo a sua ajuda para ensiná-las. Quando decidiu levar o assunto mais a sério acabou por encontrar a Escolinha de Alvalade, que já existia. Rui obteve depois uma formação em Jogo e Motricidade Infantil cuja metodologia adaptou para ensinar o equilíbrio da bicicleta a adultos. As primeiras amigas que ensinou representaram a ponta do icebergue que viria a descobrir mais tarde: “80% dos iniciantes que tenho são do sexo feminino, dos quais 50 ou 60% nasceram entre 1962 e 1975”. Rui avança uma possível explicação para este fenómeno que ocorre na Grande Lisboa, associando-o ao período em que a cidade cresceu e ficou dominada pelo automóvel: “Foi o final das brincadeiras de rua”, diz-nos, resultado de um sentimento de insegurança crescente.

Para Ana Pereira e Bruno Santos, da Cenas a Pedal, é difícil traçar um perfil de pessoas que os procuram. Formados em 2008 pelo britânico Cyclists' Touring Club para a instrução de condução de bicicleta (tal como este que vos escreve), lidam com aprendizes de todas as idades e com as mais diversas histórias de vida. Há receios que acompanham os aprendizes até às aulas, mas também uma dose suficiente de coragem, vontade e perseverança: “Há muitos medos associados e quanto mais velhas são as pessoas mais isso se nota, porque tiveram mais anos para criar expectativas. E não é só o medo de cair, é também o medo de falhar, medo de se meterem a fazer uma coisa que acham já não ser para a sua idade, isso tem uma importância diferente da que tem para uma pessoa de 20 ou 30 anos, há esse medo de estar a arriscar fazer algo meio atípico para a idade e depois não funcionar”, diz Ana. Mas a experiência de instrutores e alunos prova que funciona.

Avançar

São os adultos quem mais procura estas aulas, mas há também pais que optam por dar aos filhos a oportunidade de aprender num ambiente controlado. Para a Cenas a Pedal e Escolinha de Alvalade, que ensinam crianças a partir dos cinco anos, as razões para essa escolha variam entre a limitação física dos pais, para acompanhar em segurança a aprendizagem dos filhos, e o insucesso de tentativas anteriores. Embora seja normal as crianças aprenderem mais depressa que os adultos, estes cursos funcionam para todos e todas as idades como um acelerador desse processo, a forma mais eficiente de desenvolver e adquirir novas competências. Qualquer pessoa está apta a aprender, até sozinha. O que aqui se faz é evitar caminhos tortuosos e aquisição de vícios que prejudiquem ou não acrescentem nada de essencial ao andar de bicicleta. Cada instrutor tem o seu método e há, entre todos, alguns pontos de convergência.

Leonel Mendonça, instrutor nos cursos que a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB) organiza pontualmente em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, tem a missão de ensinar em grupo, factor que considera ajudar à aprendizagem: “uns puxam pelos outros e estão todos em pé de igualdade. Ao ser em grupo, nós não conseguimos estar a dar apoio a todos ao mesmo tempo, o que faz com que eles sejam obrigados a ter uma certa autonomia no momento em que estão a aprender”. A mesma opinião já não é partilhada por Rui Pratas da Pedalnature que, depois de ter experimentado essa abordagem, apercebeu-se da discrepância de ritmos de aprendizagem: “não é justo dar mais atenção aos que evoluem mais depressa. [Agora] as aulas são sempre individuais e reservo três horas para cada uma”, refere.

Este ano, surgiu o primeiro curso do género na cidade do Porto pela mão de Pedro Rosa, bailarino e coreógrafo. “A minha experiência no ensino da dança contemporânea a jovens e adultos é a base do meu método”, conta-nos. “Passa por uma desconstrução precisa da postura e do movimento, de uma análise cuidada do funcionamento do corpo e da própria mecânica envolvida no acto de dirigir uma bicicleta. Trata-se de fazer um trabalho passo a passo, começando com noções e tarefas mais simples e progredindo até ao acto completo de dirigir a bicicleta com segurança e leveza”, continua.

Todos concordam que um bom espaço de ensino é condição fundamental para a eficácia da aprendizagem. Zonas amplas, planas ou com ligeira inclinação para facilitar o arranque, sem trânsito, sem obstáculos numa primeira fase, com curvas e obstáculos na fase final. Nem sempre é possível reunir num mesmo local todas as características desejáveis, sendo necessário priorizar e ajustar. Os instrutores têm locais de treino habituais podendo, no caso da Cenas a Pedal e Pedalnature, deslocar-se até à zona de residência do aluno, caso seja do seu interesse e exista um local de treino adequado nas proximidades.

Com alguma frequência surgem pedidos para que as aulas se realizem longe de olhares indiscretos. O desejo de não querer ser visto, seja por desconforto ou por se tratar de figuras públicas, deve ser tido em conta na medida em que pode influenciar o ritmo e o à-vontade necessários para aprender. Rui Pratas recorre preferencialmente a uma área no Parque das Nações, em Lisboa, e chega a iniciar as aulas às 5h30 da manhã, quando não se vê vivalma nas redondezas, para satisfazer esses pedidos. A Cenas a Pedal realiza os seus cursos regulares no Jardim da Estrela onde tenta uma abordagem diferente sobre a privacidade: “Nós tentamos desdramatizar isso, aprender a andar de bicicleta é como fazer outra coisa qualquer”, diz Bruno acrescentando que, quando o aluno não se sente à vontade, acaba por pedir um sítio mais resguardado ou é o próprio instrutor quem toma essa decisão: “é um bocadinho mais desafiante, às vezes, e há pessoas que obviamente encaram isso com mais à-vontade do que outras, mas não tem impedido que aprendam e tem a vantagem de o fazerem num sítio mais realista, no fundo”.

Adquirir

As circunstâncias específicas de cada aluno recomendam que os instrutores adaptem o que for necessário para beneficiar a aprendizagem. É o que acontece com a escolha da bicicleta de treino, onde o tamanho, a geometria e destreza a que obriga na condução têm influência directa sobre o aluno, como nos diz João Santos: “Isso é outro segredo do ensinar a andar de bicicleta, que a pessoa se sinta bem, [sabendo que] assim que põe os pés no chão está em segurança e não cai, porque as pernas fazem um bipé sem ter que se levantar. Só depois é que começamos a subir gradualmente o selim”. Rui Pratas tem vindo a especializar-se no ensino a pessoas obesas, construindo uma bicicleta adaptada para esse efeito – com rodas mais pequenas, tamanho 24'', e um sistema de travões alterado – de forma a “não obrigar os iniciantes a dobrar tanto os membros inferiores, que é a maior dificuldade que têm”. Hoje, graças ao passar da palavra, é bastante procurado para este serviço.

A aprendizagem tem um lado mecânico e outro, mais subjectivo, que exige dos instrutores uma sensibilidade para compreender bloqueios mentais. Por mais método que se desenvolva e eficiente que se consiga tornar o processo, o instrutor é sobretudo um companheiro de aprendizagem, um apoio, um guia, alguém que encoraja e valida constantemente os pequenos avanços que o aluno realiza. A bicicleta e o ciclista devem fundir-se num corpo só: “no início os principais problemas são a verticalidade do corpo, o alinhamento com a bicicleta e a utilização funcional do guiador”, refere Pedro Rosa, notando também que “muitas vezes o corpo inclina-se para os lados, encolhe-se e fica tenso aos primeiros sinais de desequilíbrio ou receio de algum imprevisto” e a tendência é agarrar o guiador com muita força. Para conseguir aliviar a tensão “respiramos fundo”, conclui.

Ana Pereira considera “a parte emocional tão ou mais importante do que a técnica. Muitas vezes tu explicas e a pessoa percebe, mas depois têm a parte emocional a dar cabo daquilo, por isso não serve de muito seres bom a explicar a técnica se depois não tiveres um perfil de relacionamento interpessoal que permita vencer essas barreiras”. Por essa razão, o treino faz-se também do lado dos instrutores já que é fundamental criar uma relação de confiança e para isso é necessária uma boa dose de reforço positivo: “As pessoas costumam dizer que nós somos muito simpáticos e temos muita paciência. A experiência aí ajuda imenso, porque eu não tenho que fingir confiança, eu tenho confiança que aquilo vai funcionar. Por isso, às vezes as pessoas acreditam nelas próprias simplesmente porque sentem que eu acredito nelas”, remata Ana.

Talvez a maioria das pessoas passe pela experiência de aprender a andar de bicicleta duas vezes ao longo da sua vida – a primeira como aprendiz, a segunda para ensinar os filhos. É raro encontrar quem não se lembre do momento da sua “descolagem”, tal é a grandeza da emoção que se sente. Para os instrutores, apesar do aperfeiçoamento da técnica e da automatização dos processos, a alegria de ver alguém ganhar asas mantém-se, como se fosse a primeira vez.

Cursos

Lisboa:






Porto:



quinta-feira, março 29, 2012

BIKE.POP#1 no POP.UP - GUIMARÃES 2012

Tal como publicado no site POST - Cooperativa Cultural

De 31 de Março a 1 de Abril, a Capital Europeia da Cultura acolhe a cultura da bicicleta no âmbito da iniciativa POP UP, que visa animar Guimarães através da recuperação e valorização de espaços desocupados – comerciais e outros – cedidos temporariamente pelos vimaranenses.

O projecto chama-se “Pop Up Spaces” com o qual se pretende dinamizar as indústrias culturais e criativas, fomentando o desenvolvimento económico da região e posicionando Guimarães como uma cidade de referência no panorama europeu.

No próximo fim-de-semana, será a vez do Mercado Municipal de Guimarães transformar-se num Mercado Pop Up, que acolherá o evento BIKE.POP, promovido pela Cooperativa POST, em parceria com a AVE - Associação Vimaranense para a Ecologia.

Mercado Municipal de Guimarães
"Numa série de acções relacionadas com a cultura urbana e a mobilidade, haverá espaço para música, literatura e filmes ligados à cultura da bicicleta. Num espaço onde se explora de forma transversal o mais ecológico dos meios de transporte urbano, será ainda possível efectuar um “check-up” gratuito aos veículos."

A programação inclui dois workshops gratuitos: Condução de bicicleta na cidade- Nível 1 (para quem pretenda aprender mais sobre como circular na estrada em segurança e com confiança) e Mecânica para utilizadores. Poderão efetuar a inscrição para os workshops aqui.

Convidam-se ainda todos os vimaranenses e visitantes a participarem na Massa Crítica, e a juntarem-se à festa que logo a seguir terá lugar no mercado, em frente ao BIKE.LOUNGE.

No Domingo, a AVE promove um descontraído passeio pela Cidade, com saída do Mercado a partir das 11:00, seguido de "bike-nic" em local aprazível. Não se esqueçam da merenda!

BIKE.POP | Mercado Municipal de Guimarães
Bike Lounge | 31.3.2012 e 1.4.2012 | 10:00 - 18:00
Workshop Condução de Bicicleta na Cidade | 31.3.2012 | 14:30
Workshop Mecânica | 1.4.2012 | 14:00

segunda-feira, janeiro 23, 2012

A livraria de viagens também para ciclistas

Para quem viu o filme Notting Hill sabe que uma livraria de viagens pode ser um local tão interessante ao ponto de ser gerido por um Hugh Grant e visitado por uma Julia Roberts. Não está longe da verdade, a ficção. As sócias Ana Coelho e Dulce Gomes abriram recentemente um espaço tão agradável quanto interessante, que inclui um café do viajante com ementa a condizer. Sendo uma livraria dedicada a viagens, não podia deixar de ter uma secção gastronómica. Foi, de resto, graças ao apelo dos sabores de outras paragens que entrei na livraria Palavra de Viajante e fiquei a conhecê-la melhor.

A razão desta notícia aparecer aqui no Bicicleta na Cidade é porque nesta livraria encontram uma secção dedicada a viagens que serve, precisamente, para tirarem a bicicleta da cidade. Esta é muito provavelmente a primeira e única livraria de Lisboa a dedicar um espaço aos ciclistas viajantes. Mais do que meritório, isto é uma visão de futuro!
 
À conversa com Ana Coelho numa das mesas do café, fiquei a saber que este projecto surge do gosto das sócias pela literatura, por viagens e pela literatura de viagem. Queriam abrir uma livraria com um pequeno espaço de café, o que além de providenciar outra fonte de receita, a par dos livros, dinamizaria o espaço da livraria. Conseguiram-no em finais de Outubro mas não exactamente como esperavam.

Como nestas coisas de andar à procura do espaço idealizado somos sempre surpreendidos com possibilidades não antes imaginadas, a Palavra de Viajante acabou por assentar arraiais na Rua de São Bento nº 30 numa loja com cozinha a sério, daquelas que a ASAE aprova, o que lhes abriu a possibilidade de servir almoços com um menu diferente todas as semanas e jantares de grupo mediante marcação.

Num mundo dominado pela internet e grandes superfícies, “abrir uma livraria generalista não faz sentido no pequeno comércio”, diz Ana, mas antes oferecer um produto diferenciado em lojas com conceitos mais específicos, até porque no comércio de rua “as pessoas procuram outra vez o contacto com quem está do outro lado do balcão”. No fundo, a Ana e a Dulce gostam de viajar, criaram um espaço ao seu gosto e medida e são óptimas conselheiras nessa matéria, a da literatura de viagem.

Indagava-me como se terão lembrado de incluir uma secção de bicicletas na livraria. Quando começaram à procura de livros pareceu-lhes lógico incluir de início mapas com percursos para bicicletas mas também literatura inevitável como o Diário da Bicicleta de David Byrne. Depois, “há secções que surgem com sugestões de clientes”, diz Ana. Interessei-me por essa abordagem, onde o cliente assume um papel na selecção da casa. Eu próprio fui convocado pela Ana para recomendar livros assim que lhe falei do meu interesse pelas bicicletas e de como seria interessante dar a conhecer esta livraria aos ciclistas da cidade.

As sócias Ana e Dulce não sabiam da existência de grupos de incentivo e promoção do uso da bicicleta e no entanto já estão a dar o seu contributo ao criarem uma secção bike specific. Depois, vieram as sugestões dos clientes entre as quais uma que me chamou à atenção: um guia de viagem com o título La Costa Portuguesa en Bicicleta – Del Guadiana al Miño por el Litoral Portugués, edição de autor por José Ignacio Idígoras Santos que o próprio terá sugerido vender na livraria quando passou por lá. A julgar pela quantidade de portugueses que encontrei o verão passado a viajar de bicicleta pela costa alentejana, talvez este seja um guia essencial para o cicloturista português.

Durante a conversa que tive com a Ana, fiquei também a saber que os lisboetas são neste momento os grandes consumidores dos guias desta cidade. É verdade, fiquei alegremente estupefacto, tal como a Ana. Aparentemente vive-se um “vá para fora cá dentro da cidade” que está a levar os lisboetas (estamos a falar de portugueses que vivem em Lisboa) a comprar guias em português: “O guia Lisbon Walker [com sugestões de percursos a pé pela cidade] tem vendido mais na edição portuguesa do que na inglesa e não estávamos à espera disso”.

Seja para conhecerem melhor Lisboa, o país ou o mundo de bicicleta, a pé, comboio e até de carro, visitem esta livraria que fica na parte “esquecida” da Rua de São Bento, uma paralela à Avenida Dom Carlos I. Façam as vossas sugestões e recomendações bibliográficas, dedicadas às bicicletas mas não só, e ajudem a Palavra de Viajante a encher as estradas nacionais com cicloturistas. Este verão haverá Massa Crítica pelo país inteiro!

Livros recomendados:
Danube Bike Trail, from Passau to Vienna, edição Verlag Roland Esterbauer. Mapa dos percursos de bicicleta ao longo do rio Danúbio, sugestão de Ana Coelho depois de ela própria ter feito esta viagem.

La Costa Portuguesa en Bicicleta – Del Guadiana al Miño por el Litoral Portugués, José Ignacio Idígoras Santos, edição de autor.

Cyclepedia A Tour of Iconic Bicycle Designs, Michael Embacher, Thames & Hudson.

Fotos: Veera Moll (obrigado!)

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Jornal Pedal - o novo periódico gratuito

Mais um projecto a ganhar vida! Este não ficou anos a estagiar em nenhuma gaveta. O Jornal Pedal é uma publicação gratuita cujos custos são assegurados pela publicidade. Para o primeiro número, lançado a semana passada, contribuíram com textos de opinião várias pessoas do universo ciclista lisboeta, entre as quais esta pessoa que está aqui a pressionar no teclado.

O jornal fala por si, eu sou um apreciador da sua qualidade e potencial, por isso escuso-me a fazer grandes comentários. Leiam-no em papel ou na versão online, aqui embutida mais abaixo. Criem a vossa opinião e partilhem-na! O Jornal Pedal só terá a ganhar com isso.

Um dos aspectos que ainda assim quero realçar é a sua orientação editorial. O Jornal Pedal não é apenas um jornal da comunidade para si própria, é feito pela comunidade para o mundo e tem como objectivo apelar ao público que ainda não usa a bicicleta como meio de transporte urbano. Esta orientação é em tudo convergente com a postura deste blogue desde a sua criação, pelo que só posso tecer-lhe elogios. É importante mostrar ao mundo como se faz, sem altivez nem arrogâncias de sermos, nós os ciclistas urbanos, donos e senhores da razão e da moral por escolhermos aquilo que nos parece ser uma forma superior de mobilidade e de inteligência (ups!... lá está, a arrogância à espreita).

quarta-feira, junho 23, 2010

Na América profunda



SKI BOYS - filme exibido no Bicycle Film Festival Lisboa 2009. É um dos meus favoritos!


SKI BOYS from Benny Zenga on Vimeo.

Este ano o festival volta a realizar-se em Lisboa, durante o mês de Outubro. Fiquem atentos às novidades.



domingo, março 07, 2010

Produção nacional de bicicletas ameaçada pela China



in Publico.pt

Águeda recusa-se a perder a imagem de marca de "capital da bicicleta", mas corre riscos de assistir ao desaparecimento de algumas empresas

Por Maria José Santana

A situação difícil da Sirla, empresa que dá nome a uma das marcas nacionais de bicicletas mais reconhecidas, é apenas um sinal da crise que afecta este sector em Portugal. A firma fundada em 1965 e sediada em Águeda, município que vem sendo rotulado de "capital da bicicleta", está em processo de insolvência. Mas existem outras empresas do sector a viver dias complicados.

O cenário é confirmado pela própria associação representativa do sector, a Abimota (Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas, Ferragens, Mobiliário e Afins), que garante que o problema não fica a dever-se apenas à conjuntura económica actual, que provocou uma retracção do mercado (quebra de vendas).

A principal ameaça é a "concorrência desleal" que advém dos países asiáticos. Para os dirigentes da Abimota urge avançar com medidas de controlo do dumping no sector, até porque as contas feitas não deixam grande margem para dúvidas.

"Só no dumping comercial estamos a falar de uma taxa de 40 por cento. E não é possível contabilizar os efeitos do dumping ambiental, social e político", traçou Paulo Rodrigues, secretário-geral da Abimota. "Portugal é pouco rigoroso na forma como deixa entrar outros produtos", exemplificou.

A associação que conta com um laboratório de ensaios para certificação dos produtos das suas associadas alerta ainda para a necessidade de separar o trigo do joio em matéria de qualidade. E tal só será concretizável com uma legislação que determine que "uma determinada entidade possa actuar no mercado, seleccionando os produtos que são certificados", defendeu o secretário-geral da associação representativa do sector.

Num estudo elaborado em 2008 pela Direcção-geral das Actividades Económicas é apontado que a produção nacional anual, assegurada por cerca de 30 empresas, ascende a "um milhão de bicicletas, sendo o consumo interno estimado da ordem das 300 mil unidades". Os últimos números conhecidos, relativos ao ano de 2007, apontam para um valor de exportações na ordem dos 150 milhões de euros. A conjuntura actual não é, certamente, tão auspiciosa. A Abimota reconhece existir uma retracção do mercado e fala em várias empresas "em situação difícil", sem especificar quantas.

Paulo Rodrigues não deixa de destacar o facto de o cenário da produção nacional só não ser pior por força da aposta de uma grande empresa francesa (Decathlon) nas empresas portuguesas. "Caso não houvesse esse efeito da Decathlon, a crise no sector podia ser pior", analisa.

A redução da taxa de IVA (hoje nos 20 por cento) aplicada actualmente às bicicletas poderia constituir, segundo os responsáveis da Abimota, uma "medida prática" de ajuda ao sector. "Devia ser uma taxa equiparada à dos ginásios [cinco por cento], uma vez que a bicicleta tem um papel fundamental no bem-estar e na saúde", argumentou Paulo Rodrigues.

Sobreviver via exportação

O cenário de crise no subsector das bicicletas acaba por ser confirmado junto do administrador de duas empresas nacionais reconhecidas, a Órbitra e a Miralago (esta última mais vocacionada na produção de bicicletas para ginásio). Desde 1956 que o empresário Aurélio Ferreira acompanha a evolução da indústria das duas rodas (bicicletas e motorizadas).

"Hoje acompanho o retrocesso, só restando "esqueletos" de fábricas onde outrora, por todo o lado, ao "silvo das sirenes" se seguia o "matraquear" das passadas dos milhares de operários que do sector viviam", lembra o empresário aguedense. E acrescenta: "Águeda, outrora capital das duas rodas, tem somente uma rotunda que simboliza um passado, que foi imenso neste sector. Resta-nos isso."

No caso concreto da Órbita, assume Aurélio Ferreira, a salvação tem sido o facto de o volume de exportação se situar nos 60 por cento. Outro dos "segredos" passa, segundo o empresário, pela constante procura de "nichos de mercado e de produtos de maior tecnologia onde outros têm dificuldade em chegar".


fonte: http://jornal.publico.clix.pt/noticia/07-03-2010/producao-de-bicicletas-ameacada-pela-china-18942739.htm

É importante notar aqui dois aspectos: Denuncia-se, por um lado, a prática de dumping (explicada aqui) alegadamente levada a cabo pela China e culpa-se essa prática para justificar as dificuldades das empresas portuguesas. Por outro lado, oculta-se a responsabilidade que as empresas portuguesas têm sobre as suas próprias opções estratégicas.

É sem dúvida difícil, senão impossível, querer competir com a China no seu reino: o da produção industrial baseada em mão-de-obra intensiva e barata. Sabendo isto, resta-nos saber reconhecer quando as perdas das empresas são consequência da replicação desse modelo, já gasto e em desuso na Europa, assim como distinguir as empresas portuguesas entre si de modo a não incluir no mesmo saco situações muito díspares.


terça-feira, dezembro 01, 2009

Um Portugal que vem do Alasca e vive em Portland



Chama-se "Portugal. The Man" e é uma banda de indie rock experimental (entre outras nomenclaturas que se encontram internet adentro). É do Alasca (Wasilla) mas está sedeada em Portland. Esteve no Festival Paredes de Coura este ano, naquela que foi a sua primeira vinda a Portugal. O país.

Na Wikipédia inglesa diz-se que o nome deriva do seguinte:

The band's name is based on the idea of David Bowie's "bigger than life" fame. They wanted the band to have a bigger than life feel but didn't want to name it after one of their members.

"A country is a group of people," guitar player and vocalist John Gourley explains. "With Portugal, it just ended up being the first country that came to mind. The band's name is 'Portugal'. The period is stating that, and 'The Man' states that it's just one person." The name has more personal meaning as well: Portugal. The Man was going to be the name of a book that Gourley had planned to write about his father and his many adventures.


Chegam ao Bicicleta na Cidade por causa do vídeo da canção "Everyone is Golden" que faz parte do seu último álbum, "The Satanic Satanist". A única versão que consegui encontrar é apenas um preview de 44 segundos, suficientes para me agradar.

Para quem conhece a realidade ciclista de Portland (para quem não conhece basta dizer que é recente e pujante) o vídeo não surpreenderá mas tão-pouco é essa a intenção. Trata-se apenas de um vídeo bonito de uma música interessante de uma banda com um nome curioso...



Vale a pena espreitar também: http://www.myspace.com/portugaltheman

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Milão: 3º e último dia de filmes, e do festival...



Apesar deste relato chegar com mais de uma semana de atraso parece-me conveniente manter a ordem cronológica, até porque as notícias interessantes não perdem a actualidade no Bicicleta na Cidade.













O último dia do Bicycle Film Festival em Milão foi ameno, depois da neve e da chuva. No meio da adversidade, nenhuma das actividades outdoor previstas no programa foi cancelada. No Domingo decorreu a corrida de ciclocross urbano (à qual não assisti) e um jogo de bike polo. Este jogo consiste, já se vê, em jogar polo sem cavalo usando uma bicicleta de roda fixa em substituição. A roda fixa não é obrigatória, segundo as regras de vários grupos que consultei (por exemplo aqui e aqui) mas em Milão não vi nenhum jogador com outro tipo de bicicleta. A modalidade, ou variante, a que assisti chama-se "hard court" e assemelha-se às versões street ou urban de alguns desportos: qualquer ringue desportivo ou corte de ténis serve. No jogo ao qual assisti as regras estabeleciam equipas de 3 jogadores, ganhando aquela que primeiro marcasse 3 golos. A equipa que perdesse dava lugar a outra, no fundo uma "roda bota fora".
As balizas e o campo (na Piazza San Fedele)


O grupo Milano Fixed organiza jogos como este, que integrou o programa oficial do BFF, todas as quartas-feiras às 21h30 (o que é de louvar tendo em conta o frio que por lá faz...).

De resto, no último dia de filmes foi exibido "Standing Start" que também passou no DocLisboa 2008, um filme de 12 minutos sobre o ciclista olímpico Craig MacLean. Destaco-o dos restantes filmes que vi nesta sessão (infelizmente não todos porque tinha um avião para apanhar...) pela sua realização, que consegue fazer suster a respiração do público ou, pelo menos, sincronizá-la com a do protagonista, corredor olímpico.

Nos próximos posts trarei mais novidades de Milão, tentando dar ainda atenção a outros aspectos da cultura ciclista daquela cidade que vão para além do Bicycle Film Festival. Segue-se Portland, EUA, que fecha a edição de 2008 do BFF. Quanto a 2009, aguardam-se novidades que se esperam breves. Ciao!



sábado, novembro 29, 2008

Milão: 2º dia de filmes e grande festa no final




Uma das curtas metragens exibidas ontem, no primeiro dia de filmes do BFF, foi o vídeoclip da canção "What's a Girl to Do", dos britânicos Bat for Lashes que já foi mostrado aqui no Bicicleta na Cidade. Deixo uma nota especial também ao filme "Les Ninjas du Japon", exibido ontem, do qual gostei bastante pela forma como aborda uma prova de ciclismo desportivo - dando especial ênfase ao encontro de dois mundos distantes (Burkina Faso e Japão) e dos seus protagonistas. Aconselho vivamente a sua visualização.

Hoje, o programa segue com mais uma sessão de filmes. Não vou entrar em pormenores porque, se me permitem, quero aproveitar as poucas horas de sol que restam para ir visitar a cidade de bicicleta! Ontem nevou o dia todo e, à falta de material impermeável, tive mesmo que desistir dessa ideia. Ao contrário deste(a) milanês(a)...


À medida que o nevão foi diminuindo de intensidade, as bicicletas voltaram a aparecer, não obstante o facto de haver muito menos ciclistas na cidade. Parece que os milaneses têm uma solução para os dias de mau tempo: não andam de bicicleta! Eis como se resolve uma das dificuldades mais vezes referida para a implementação do seu uso como meio de transporte. Se não compensar ir de bicicleta, recorre-se às alternativas. Simples.

Urban Velodrome Party - a festa começa após os filmes e será num velódromo urbano indoor, sito na garagem de um supermercado. Prometo fotos!


sexta-feira, novembro 28, 2008

Milão: 1º dia de filmes, 1º dia de neve!




Esta é a bicicleta que a organização do Bicycle Film Festival me emprestou ontem e este é o estado em que se encontrava hoje de manhã. Não será a neve a fazer-me parar!

Foi ontem a inauguração da exposição "Joy Ride". Ficam aqui algumas fotos:


Depois de dois dias de eventos, começa hoje a exibição dos filmes, antecedida da apresentação pelo director e fundador do BFF, Brendt Barbur. Segue-se uma sessão de curtas, "bike fun shorts", e às 21h30 terá início a segunda sessão da noite com 3 filmes: "Pantani e 'Le Tour de France'", uma vídeo montagem sobre a figura do ciclista Marco Pantani, "Coppi", que celebra Fausto Coppi, e a longa-metragem "Les Ninjas du Japon", filme de Giovanni Giommi sobre a participação de cinco ciclistas japoneses no Tour du Faso, a prova mais importante do continente africano.

O dia acaba com (mais) uma festa, no Bar Cuore. O convívio entre a organização, os participantes e os espectadores deste festival tem sido uma constante. Há boas vibrações no ar! Este evento é um óptimo local para fazer amigos e novos contactos na "bike scene" internacional.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Milão: BFF começou























Muita gente na abertura. Sushi e bebidas grátis (só podem ter bons patrocinadores). "Fixies" em exposição (bicicletas fixed gear, como as que são usadas nos velódromos) que de resto estão totalmente na moda aqui em Milão. O festival é toda uma exposição artística da bicicleta como objecto de culto, quase fetiche. As bicicletas de mudança fixa dão o mote estético: são minimalistas e representam o essencial da bicicleta. Tudo o mais é acessório.

Programa do dia: Aeolian Ride e inauguração da exposição colectiva "Joy Ride" que reúne trabalhos em pintura, fotografia, escultura e bicicletas de vários artistas de todo o mundo.


quarta-feira, novembro 26, 2008

Milão: primeiras impressões




O Bicycle Film Festival só começa hoje à noite, com uma festa onde Simone Pace dos Blonde Redhead irá interpretar a banda sonora do filme "The Impossible Hour" (no título original dinamarquês "Den Umlige Time") de 1974. Trata-se de um documentário realizado por Jørgen Leth (um dos precursores do cinema Dogma) que relata a história do ciclista dinamarquês Ole Ritter na sua tentativa, falhada, de bater o recorde da hora no velódromo da Cidade do México. O record da hora corresponde à maior distância percorrida numa hora em bicicleta num velódromo. Esta será a primeira performance na Europa, depois da estreia em Maio nos EUA. A seguir virá o Ninja DJ com um set de electro. As festas são uma constante ao longo deste festival de Milão, todos os dias haverá uma!

Entretanto, passei hoje umas horas a passear pela cidade captando fotos e vídeos. É inevitável que numa capital da moda como Milão haja cycle chic por todo o lado. Mas não é exclusivista, ou seja, são várias as bicicletas de montanha baratas que se vêem nas ruas assim como modelos da Decathlon que também se vendem em Portugal (e que provavelmente foram produzidos aí no rectângulo), tornando o uso da bicicleta bastante ecléctico. Convenhamos, porém, que aqui reinam as pasteleiras clássicas com uma mudança apenas. A par das vespas e demais scooters ou motorizadas que pululam e chegam a invadir os locais de estacionamento para bicicletas.

Men Style vs. Ladies Style
(ou apenas dois exemplos da multiplicidade de estilos que por aqui circula)




terça-feira, novembro 25, 2008

Embarque para Milão




O Bicicleta na Cidade vai até ao Bicycle Film Festival de Milão. O meu objectivo é conseguir fazer uma cobertura do evento "em directo" aqui no blogue. Veremos se é possível. Se não for, terei novidades daqui a uma semana.

Ciao!