O que leva uma agência de marketing,
aliás, uma agência de activação de marca, a lançar uma campanha
intitulada “
Devolvam a bicicleta ao Chinês”? O que à primeira
vista parece ser uma iniciativa carregada de sentimentos altruístas,
esconde uma verdade menos santa.
Fui levado pela curiosidade a espreitar
a página criada no Facebook, com o mesmo nome da campanha, para
perceber quem era o tal chinês, porque é que ele era importante e
porque queriam devolver-lhe a bicicleta. Maior foi a minha
curiosidade pelo facto de ouvir falar desta campanha através de
pessoas que pouco ou nada estão ligadas ao meio das bicicletas,
pessoas tão insuspeitas que o próprio conhecimento desta campanha
levantava, sozinho, algumas suspeitas sobre as reais motivações da
mesma. Já se sabe que as
bicicletas estão na moda, mas deverá isso servir como justificação
para tudo?
A tal página do Facebook revelou-me
logo que nada disto existiria, campanha e fins altruístas, se o
ciclista Eric Feng não fosse de nacionalidade chinesa. Eric Feng,
nome que não revela tão facilmente o país de origem como outros
substantivos chineses, percorreu 18 mil quilómetros de bicicleta
entre o seu país e Portugal, com o objectivo de celebrar a memória
de dois exploradores marítimos da história de cada um destes países
e promover as energias não poluentes. À passagem por Sines
roubaram-lhe o veículo, mas quem empreende uma aventura destas sabe,
ou devia sabê-lo, que essa é uma possibilidade presente ao longo de
todo o caminho. No entanto, talvez por maior desleixe ou relaxe
associados à ideia de que estamos quase a chegar ao destino final, o
que para uma mente cansada depois de tanto tempo passado entre
destinos é um forte convite a “baixar a guarda” de vigilância
constante, este incidente ocorreu só depois de Eric cumprir uma das
metas a que se propôs – chegar à terra-natal de Vasco da Gama –
e a insignificantes quilómetros do fim.
A campanha foi lançada no dia em que
saiu a primeira notícia sobre a aventura de Feng na imprensa
portuguesa, que foi também o dia em que o ciclista regressou de
avião ao seu país. A página do Facebook está pejada de
referências “ao chinês” e notas satíricas de erros fonéticos,
a troca dos erres pelos eles, e trocadilhos com palavras chinesas que
em português adquirem outro significado. Percebe-se assim que existe
um argumento oculto poderoso por detrás da campanha, capaz de
activar reacções no senso comum. A tal agência de activação de
marca, responsável pela acção, estava com isto a activar motivos
de cariz xenófobo que associamos à “marca” chinês. É um duro
golpe de marketing, extremamente eficaz mas tremendamente errado na
sua génese. Se o ciclista fosse, digamos, iraniano, não iria soar
tão poderoso porque há menos referências culturais e as que temos
poderiam levantar alguns problemas. “O chinês” tem uma inocência
benévola acoplada, talvez fruto de mais anos de convivência com
esse “outro” que, não obstante, serve para alimentar discursos
de identidade cultural muitas vezes focados no binómio
superior-inferior.
A história de Feng continuou com o
apoio de um grupo de
cicloturistas de Almada, que lhe deram guarida, emprestaram
uma bicicleta e acompanharam-no até ao destino final – o Cabo da
Roca. A solidariedade ciclista e a vontade de pedalar juntos nada têm
que ver com a campanha que a tal agência criou, com o objectivo de
enviar uma nova bicicleta e todo o tipo de folclore português para
mostrar a Feng que somos, enquanto povo, uns gajos porreiros e não
uma bandidagem organizada. A verdade é que se roubam bicicletas em
todo o mundo, se este país fosse excepção é porque haveria algo
de muito errado, ou muito certo, com as pessoas que o habitam.
De resto, quando a campanha conseguir
devolver uma bicicleta a Feng, a probabilidade de que ela tenha saído
inicialmente de uma fábrica na China, atracado num porto português
e devolvida ao seu país de origem, é enorme. A bicicleta terá
feito duas viagens iguais à de Feng com custos ambientais
consideravelmente maiores, algo que o ciclista quis evitar na sua
travessia.