terça-feira, Abril 01, 2014

Aprender a pedalar - como se ensina e como se aprende a andar de bicicleta

Texto originalmente publicado no Jornal Pedal nº 11, de Dezembro 2012. Apesar da idade do mesmo o conteúdo mantém-se actual, salvo nas condições que cada escola aqui retratada disponibiliza para os seus cursos. Confirmem nos links abaixo a oferta em vigor. À data (a de hoje) sou instrutor no Bike.POP.

Cortesia The Online Bicycle Museum


Manobrar uma máquina requer conhecê-la para lá do seu manual de instruções. Implica mais do que usar a lógica. Adquire-se com a prática. Quem ensina e quem aprende a andar de bicicleta sabe que é assim, um exercício de experimentação motora e de expulsão de receios que bloqueiam o acesso à experiência. Tudo isto se consegue mediante algumas premissas, ou antes, tudo fica mais fácil quando elas estão reunidas.

Quem escreve esta reportagem é também instrutor de condução de bicicleta, o que pode levantar algumas questões sobre o puxamento da brasa a uma sardinha que começa a dar as primeiras pedaladas como área de negócio. Creia o leitor que é uma tarefa exigente, esta de quem escreve, conquanto traz consigo a possibilidade de explorar nuances e subtilezas só ao alcance dos que conhecem o terreno e a experiência que aqui se conta.

Decidir

Muitas são as razões que levam alguém a adiar o momento em que se aprende a descolar os pés do chão e a ganhar controlo sobre um mecanismo simples, porém simbiótico, que alicerça uma nova forma de contacto entre o chão e o nosso corpo. Substituir os pés pelas rodas e o pavimento pelos pedais está ao alcance de todos os que sentem motivação para experimentá-lo. Sem isso, nada feito. A vontade antecede tudo, mesmo os pânicos de última hora que podem levar a algumas desistências ou a novos adiamentos.

Nos últimos 6 anos surgiram cursos para ensinar a pedalar e procura não tem faltado. A Escolinha da Bicicleta, do Núcleo Cicloturista de Alvalade, em Lisboa, foi a primeira a oferecer o serviço, uma ideia que surgiu depois de lhes ser concedido um espaço no Complexo Desportivo Municipal de São João de Brito, passando o colectivo a dispor de um ringue de jogos onde desde 2006 ensinam. Começou como uma “carolice”, diz-nos o presidente e instrutor João Santos: “ninguém estava à espera que alcançássemos o número de alunos nem os efeitos práticos que daí resultaram”. A procura destes cursos é geralmente antecedida de outras tentativas frustradas, a solo ou com a ajuda de familiares e amigos.

Rui Pratas é o instrutor da Pedalnature e há dez anos deu-se conta de que algumas amigas suas não sabiam andar de bicicleta, oferecendo a sua ajuda para ensiná-las. Quando decidiu levar o assunto mais a sério acabou por encontrar a Escolinha de Alvalade, que já existia. Rui obteve depois uma formação em Jogo e Motricidade Infantil cuja metodologia adaptou para ensinar o equilíbrio da bicicleta a adultos. As primeiras amigas que ensinou representaram a ponta do icebergue que viria a descobrir mais tarde: “80% dos iniciantes que tenho são do sexo feminino, dos quais 50 ou 60% nasceram entre 1962 e 1975”. Rui avança uma possível explicação para este fenómeno que ocorre na Grande Lisboa, associando-o ao período em que a cidade cresceu e ficou dominada pelo automóvel: “Foi o final das brincadeiras de rua”, diz-nos, resultado de um sentimento de insegurança crescente.

Para Ana Pereira e Bruno Santos, da Cenas a Pedal, é difícil traçar um perfil de pessoas que os procuram. Formados em 2008 pelo britânico Cyclists' Touring Club para a instrução de condução de bicicleta (tal como este que vos escreve), lidam com aprendizes de todas as idades e com as mais diversas histórias de vida. Há receios que acompanham os aprendizes até às aulas, mas também uma dose suficiente de coragem, vontade e perseverança: “Há muitos medos associados e quanto mais velhas são as pessoas mais isso se nota, porque tiveram mais anos para criar expectativas. E não é só o medo de cair, é também o medo de falhar, medo de se meterem a fazer uma coisa que acham já não ser para a sua idade, isso tem uma importância diferente da que tem para uma pessoa de 20 ou 30 anos, há esse medo de estar a arriscar fazer algo meio atípico para a idade e depois não funcionar”, diz Ana. Mas a experiência de instrutores e alunos prova que funciona.

Avançar

São os adultos quem mais procura estas aulas, mas há também pais que optam por dar aos filhos a oportunidade de aprender num ambiente controlado. Para a Cenas a Pedal e Escolinha de Alvalade, que ensinam crianças a partir dos cinco anos, as razões para essa escolha variam entre a limitação física dos pais, para acompanhar em segurança a aprendizagem dos filhos, e o insucesso de tentativas anteriores. Embora seja normal as crianças aprenderem mais depressa que os adultos, estes cursos funcionam para todos e todas as idades como um acelerador desse processo, a forma mais eficiente de desenvolver e adquirir novas competências. Qualquer pessoa está apta a aprender, até sozinha. O que aqui se faz é evitar caminhos tortuosos e aquisição de vícios que prejudiquem ou não acrescentem nada de essencial ao andar de bicicleta. Cada instrutor tem o seu método e há, entre todos, alguns pontos de convergência.

Leonel Mendonça, instrutor nos cursos que a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB) organiza pontualmente em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, tem a missão de ensinar em grupo, factor que considera ajudar à aprendizagem: “uns puxam pelos outros e estão todos em pé de igualdade. Ao ser em grupo, nós não conseguimos estar a dar apoio a todos ao mesmo tempo, o que faz com que eles sejam obrigados a ter uma certa autonomia no momento em que estão a aprender”. A mesma opinião já não é partilhada por Rui Pratas da Pedalnature que, depois de ter experimentado essa abordagem, apercebeu-se da discrepância de ritmos de aprendizagem: “não é justo dar mais atenção aos que evoluem mais depressa. [Agora] as aulas são sempre individuais e reservo três horas para cada uma”, refere.

Este ano, surgiu o primeiro curso do género na cidade do Porto pela mão de Pedro Rosa, bailarino e coreógrafo. “A minha experiência no ensino da dança contemporânea a jovens e adultos é a base do meu método”, conta-nos. “Passa por uma desconstrução precisa da postura e do movimento, de uma análise cuidada do funcionamento do corpo e da própria mecânica envolvida no acto de dirigir uma bicicleta. Trata-se de fazer um trabalho passo a passo, começando com noções e tarefas mais simples e progredindo até ao acto completo de dirigir a bicicleta com segurança e leveza”, continua.

Todos concordam que um bom espaço de ensino é condição fundamental para a eficácia da aprendizagem. Zonas amplas, planas ou com ligeira inclinação para facilitar o arranque, sem trânsito, sem obstáculos numa primeira fase, com curvas e obstáculos na fase final. Nem sempre é possível reunir num mesmo local todas as características desejáveis, sendo necessário priorizar e ajustar. Os instrutores têm locais de treino habituais podendo, no caso da Cenas a Pedal e Pedalnature, deslocar-se até à zona de residência do aluno, caso seja do seu interesse e exista um local de treino adequado nas proximidades.

Com alguma frequência surgem pedidos para que as aulas se realizem longe de olhares indiscretos. O desejo de não querer ser visto, seja por desconforto ou por se tratar de figuras públicas, deve ser tido em conta na medida em que pode influenciar o ritmo e o à-vontade necessários para aprender. Rui Pratas recorre preferencialmente a uma área no Parque das Nações, em Lisboa, e chega a iniciar as aulas às 5h30 da manhã, quando não se vê vivalma nas redondezas, para satisfazer esses pedidos. A Cenas a Pedal realiza os seus cursos regulares no Jardim da Estrela onde tenta uma abordagem diferente sobre a privacidade: “Nós tentamos desdramatizar isso, aprender a andar de bicicleta é como fazer outra coisa qualquer”, diz Bruno acrescentando que, quando o aluno não se sente à vontade, acaba por pedir um sítio mais resguardado ou é o próprio instrutor quem toma essa decisão: “é um bocadinho mais desafiante, às vezes, e há pessoas que obviamente encaram isso com mais à-vontade do que outras, mas não tem impedido que aprendam e tem a vantagem de o fazerem num sítio mais realista, no fundo”.

Adquirir

As circunstâncias específicas de cada aluno recomendam que os instrutores adaptem o que for necessário para beneficiar a aprendizagem. É o que acontece com a escolha da bicicleta de treino, onde o tamanho, a geometria e destreza a que obriga na condução têm influência directa sobre o aluno, como nos diz João Santos: “Isso é outro segredo do ensinar a andar de bicicleta, que a pessoa se sinta bem, [sabendo que] assim que põe os pés no chão está em segurança e não cai, porque as pernas fazem um bipé sem ter que se levantar. Só depois é que começamos a subir gradualmente o selim”. Rui Pratas tem vindo a especializar-se no ensino a pessoas obesas, construindo uma bicicleta adaptada para esse efeito – com rodas mais pequenas, tamanho 24'', e um sistema de travões alterado – de forma a “não obrigar os iniciantes a dobrar tanto os membros inferiores, que é a maior dificuldade que têm”. Hoje, graças ao passar da palavra, é bastante procurado para este serviço.

A aprendizagem tem um lado mecânico e outro, mais subjectivo, que exige dos instrutores uma sensibilidade para compreender bloqueios mentais. Por mais método que se desenvolva e eficiente que se consiga tornar o processo, o instrutor é sobretudo um companheiro de aprendizagem, um apoio, um guia, alguém que encoraja e valida constantemente os pequenos avanços que o aluno realiza. A bicicleta e o ciclista devem fundir-se num corpo só: “no início os principais problemas são a verticalidade do corpo, o alinhamento com a bicicleta e a utilização funcional do guiador”, refere Pedro Rosa, notando também que “muitas vezes o corpo inclina-se para os lados, encolhe-se e fica tenso aos primeiros sinais de desequilíbrio ou receio de algum imprevisto” e a tendência é agarrar o guiador com muita força. Para conseguir aliviar a tensão “respiramos fundo”, conclui.

Ana Pereira considera “a parte emocional tão ou mais importante do que a técnica. Muitas vezes tu explicas e a pessoa percebe, mas depois têm a parte emocional a dar cabo daquilo, por isso não serve de muito seres bom a explicar a técnica se depois não tiveres um perfil de relacionamento interpessoal que permita vencer essas barreiras”. Por essa razão, o treino faz-se também do lado dos instrutores já que é fundamental criar uma relação de confiança e para isso é necessária uma boa dose de reforço positivo: “As pessoas costumam dizer que nós somos muito simpáticos e temos muita paciência. A experiência aí ajuda imenso, porque eu não tenho que fingir confiança, eu tenho confiança que aquilo vai funcionar. Por isso, às vezes as pessoas acreditam nelas próprias simplesmente porque sentem que eu acredito nelas”, remata Ana.

Talvez a maioria das pessoas passe pela experiência de aprender a andar de bicicleta duas vezes ao longo da sua vida – a primeira como aprendiz, a segunda para ensinar os filhos. É raro encontrar quem não se lembre do momento da sua “descolagem”, tal é a grandeza da emoção que se sente. Para os instrutores, apesar do aperfeiçoamento da técnica e da automatização dos processos, a alegria de ver alguém ganhar asas mantém-se, como se fosse a primeira vez.

Cursos

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quinta-feira, Novembro 22, 2012

Devolvam o trabalho às agências de marketing, senão é nisto que dá

O que leva uma agência de marketing, aliás, uma agência de activação de marca, a lançar uma campanha intitulada “Devolvam a bicicleta ao Chinês”? O que à primeira vista parece ser uma iniciativa carregada de sentimentos altruístas, esconde uma verdade menos santa.

Fui levado pela curiosidade a espreitar a página criada no Facebook, com o mesmo nome da campanha, para perceber quem era o tal chinês, porque é que ele era importante e porque queriam devolver-lhe a bicicleta. Maior foi a minha curiosidade pelo facto de ouvir falar desta campanha através de pessoas que pouco ou nada estão ligadas ao meio das bicicletas, pessoas tão insuspeitas que o próprio conhecimento desta campanha levantava, sozinho, algumas suspeitas sobre as reais motivações da mesma. Já se sabe que as bicicletas estão na moda, mas deverá isso servir como justificação para tudo?

A tal página do Facebook revelou-me logo que nada disto existiria, campanha e fins altruístas, se o ciclista Eric Feng não fosse de nacionalidade chinesa. Eric Feng, nome que não revela tão facilmente o país de origem como outros substantivos chineses, percorreu 18 mil quilómetros de bicicleta entre o seu país e Portugal, com o objectivo de celebrar a memória de dois exploradores marítimos da história de cada um destes países e promover as energias não poluentes. À passagem por Sines roubaram-lhe o veículo, mas quem empreende uma aventura destas sabe, ou devia sabê-lo, que essa é uma possibilidade presente ao longo de todo o caminho. No entanto, talvez por maior desleixe ou relaxe associados à ideia de que estamos quase a chegar ao destino final, o que para uma mente cansada depois de tanto tempo passado entre destinos é um forte convite a “baixar a guarda” de vigilância constante, este incidente ocorreu só depois de Eric cumprir uma das metas a que se propôs – chegar à terra-natal de Vasco da Gama – e a insignificantes quilómetros do fim.

A campanha foi lançada no dia em que saiu a primeira notícia sobre a aventura de Feng na imprensa portuguesa, que foi também o dia em que o ciclista regressou de avião ao seu país. A página do Facebook está pejada de referências “ao chinês” e notas satíricas de erros fonéticos, a troca dos erres pelos eles, e trocadilhos com palavras chinesas que em português adquirem outro significado. Percebe-se assim que existe um argumento oculto poderoso por detrás da campanha, capaz de activar reacções no senso comum. A tal agência de activação de marca, responsável pela acção, estava com isto a activar motivos de cariz xenófobo que associamos à “marca” chinês. É um duro golpe de marketing, extremamente eficaz mas tremendamente errado na sua génese. Se o ciclista fosse, digamos, iraniano, não iria soar tão poderoso porque há menos referências culturais e as que temos poderiam levantar alguns problemas. “O chinês” tem uma inocência benévola acoplada, talvez fruto de mais anos de convivência com esse “outro” que, não obstante, serve para alimentar discursos de identidade cultural muitas vezes focados no binómio superior-inferior.

A história de Feng continuou com o apoio de um grupo de cicloturistas de Almada, que lhe deram guarida, emprestaram uma bicicleta e acompanharam-no até ao destino final – o Cabo da Roca. A solidariedade ciclista e a vontade de pedalar juntos nada têm que ver com a campanha que a tal agência criou, com o objectivo de enviar uma nova bicicleta e todo o tipo de folclore português para mostrar a Feng que somos, enquanto povo, uns gajos porreiros e não uma bandidagem organizada. A verdade é que se roubam bicicletas em todo o mundo, se este país fosse excepção é porque haveria algo de muito errado, ou muito certo, com as pessoas que o habitam.

De resto, quando a campanha conseguir devolver uma bicicleta a Feng, a probabilidade de que ela tenha saído inicialmente de uma fábrica na China, atracado num porto português e devolvida ao seu país de origem, é enorme. A bicicleta terá feito duas viagens iguais à de Feng com custos ambientais consideravelmente maiores, algo que o ciclista quis evitar na sua travessia.

segunda-feira, Setembro 24, 2012

Anda mais a pé

Texto originalmente publicado no Jornal Pedal nº 6, de Junho/Julho 2012. A edição de Setembro já está online e a circular pelas ruas. Jornal Pedal, agora também disponível em t-shirts.
 
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Os meus amigos ciclistas ficam surpreendidos quando lhes digo que vou a pé para algum lado. Parece-lhes estranho, nalguns casos mesmo descabido. Tento explicar-lhes que tem as suas vantagens. Dizem-me “para quê perder tempo se podes ir mais depressa de bicicleta?” numa primeira fase de choque e espanto, avançando depois para comentários mais jocosos. “Não tens pedalada” é talvez o meu preferido, por ser gratuitamente óbvio.

Gosto de andar a pé, é um facto. Sempre gostei mas só recentemente me vi confrontado com a necessidade de justificar esta opção de transporte – aliás, chamar-lhe “opção de transporte” é já de si uma justificação para uma coisa tão simples que não devia precisar de explicações, quanto mais ser defendida. Percebo que se possa achar fascinante que o ser humano seja o único primata bípede e se discutam as possíveis razões evolutivas que nos trouxeram até aqui. Agora, questionar o uso dessa faculdade que se adquire aos 12 meses de vida como se fosse um atavismo cultural já me parece excessivo. Um bêbado que não consegue andar é normal. Um sóbrio que anda, é uma extravagância.

Entre piadas e estupefacções, dei por mim a fazer exercícios de retórica numa tentativa de normalizar o meu comportamento, desviante aos olhos dos ciclistas. O que percebi é que nada mudou no mundo tirando, talvez, a forma como nos deslocamos. Senão reparem, quando tenho que justificar o andar a pé, os meus argumentos são os mesmos que qualquer ciclista aponta a um automobilista: é um meio de transporte muito ecológico porque, além de não produzir emissões de CO2, não contribui para uma indústria poluente como a das bicicletas – que implica a produção de óleos e lubrificantes à base de petróleo e peças feitas a partir de minérios cada vez mais escassos – nem depende (tanto) de bens importados de paragens longínquas e exóticas que aumentam substancialmente a sua pegada ecológica, também conhecida por emissões de CO2, também conhecida por poluição.

Estacionamento é um problema que não existe quando vou a pé porque não tenho que procurar um local visível e uma estrutura robusta para prender a bicicleta, nem saber se o meu cadeado é seguro para determinadas zonas e horas. Estacionamento à porta pode parecer uma ideia brilhante, mas não ter que estacionar de todo é que é. Outra vantagem a reter: intermodalidade com os transportes públicos, horários e condições de acesso? Deixem-me rir.

Depois, há toda uma nova perspectiva da cidade que se adquire, é uma descoberta que se faz como quando se experimenta usar a bicicleta numa base regular. Novos percursos, melhores caminhos com piso mais agradável, passeios mais largos...a lista de preferências é infinda. Para mim a grande diferença está na velocidade a que a cidade passa por nós e no que ela me permite apreender. Deslocando-me mais devagar, consigo descobrir novos restaurantes e lojas mais depressa do que a “Time Out”.

Menos é mais. E numa lógica de transporte pós-rodinhas tudo se torna mais relaxado. Andar de bicicleta é fixe e dá-nos uma sensação de adrenalina que, a pé, é substituída por uma calma que nos permite pensar, seja no que for. Quem vai de bicicleta tem que estar atento ao trânsito (chato), aos carros (chatos) e aos peões (lentos) que se atravessam sem aviso, sem olhar para os ciclistas. Agora compreendo-os. Eles estão ocupados a pensar em coisas muito mais importantes do que nas bicicletas. Estão a pensar na vida, na sua e na dos outros, nas bolas do vestido da rapariga que atravessa e em como ficarão vistas do avesso.

Mas a minha vida não mudou e tão-pouco deixei de andar de bicicleta. Nada disso. Passei apenas, isso sim, a fazê-lo quando estou com pressa. Experimentem! Não perdem nada, nem tempo. Vão ver que pelo caminho vos surgem ideias brilhantes, nem que seja para criticar este texto.

segunda-feira, Agosto 20, 2012

Militância Altiva

Texto originalmente publicado no Jornal Pedal nº 4, de Abril 2012. A edição de Agosto já está online e a circular pelas ruas. Esta quarta-feira vai para o ar mais uma emissão do Pedal de Prata, em directo às 22h.
 
Há uns anos atrás, não muitos, os poucos ciclistas urbanos que circulavam pelas ruas de Lisboa sentiam-se estranhos e mal-amados na maioria das lojas de bicicletas. Simplesmente porque tinham a sensação de estar a entrar num espaço onde o valor do seu veículo só encontrava paralelo no preço das barras energéticas ou das câmaras de ar, o que era no mínimo desprestigiante.

É normal, senão inevitável, o ciclista que começa a andar pela cidade tornar-se um militante da causa. Simplesmente porque é difícil ignorar as dificuldades que se lhe colocam a cada pedalada ou mesmo quando, já desmontado da bicicleta, procura estacionamento, apesar de o mobiliário urbano, quando bem explorado, oferecer soluções interessantes. O que não se esperava, à partida, é que este visionário do velocípede fosse alvo de chacota nas lojas que deviam existir para o servir.

À falta de alternativas, e tal como para outros desafios que a cidade exibe, o ciclista urbano aparenta ter desenvolvido uma defesa pessoal com laivos de altivez para enfrentar o ambiente potencialmente hostil que têm as lojas de bicicletas especializadas em vender material desportivo da era espacial. É essa atitude que o reveste de uma camada protectora contra a cavaqueira, a laracha e o desprezo de que pode ser vítima num espaço tão afastado das suas necessidades, que são básicas.

Consegue-se vislumbrar essa altivez quando o ciclista, feito militante, se dirige a quem o atende na loja dizendo: “mas, sabe, este é o meu meio de transporte diário”. Este charuto? Poderá pensar o mecânico. Mas a qualidade do material costuma importar-lhe na proporção inversa – menos é mais, pior é melhor – e altivez serve um propósito, senão vários.

O que o militante altivo pretende transmitir com a sua frase-chave é a ideia de que se vê forçado a abdicar de um elemento essencial à vida como água, muito embora, mais do que se tratar de uma forma de pressionar quem o atende a servi-lo depressa, o militante altivo quer acima de tudo deixar claro que ele anda de bicicleta pela cidade e que é de facto naquele chaço que se desloca para ir trabalhar. Isto é militância altiva, a fazer campanha para que as lojas o sirvam melhor, para que o ciclista urbano deixe de se sentir estranho num espaço onde o grama é a unidade de medida oficial, para que lhe vendam peças baratas e para que não tenha que substituir a roda por uma nova sempre que se parte um raio.

Há ciclistas que não dão uma pedalada sem ter a certeza de estar tudo bem afinado e limpo e há quem marimbe tanto para tudo isso que continua a pedalar para lá do razoável, desafiando a longevidade dos materiais. Pelo meio há uma diversidade de graus e combinações possíveis destes dois extremos – o da picuinhice e o do desleixo. O militante altivo pode ser qualquer um desses ciclistas porque o que o distingue é a forma como se relaciona com a bicicleta independentemente do seu valor – é um objecto que vale mais pelo que representa do que pelo que anda, desde que ande sempre.

O militante é altivo porque nada é superior a isso. “Digam as facécias que quiserem sobre mim e o meu veículo, o que eu quero é tê-lo pronto amanhã sem falta porque, sabe...este é o meu meio de transporte diário.”

quarta-feira, Maio 23, 2012

Poupem no óleo da corrente e ajudem a salvar as baleias!

Texto originalmente publicado no Jornal Pedal nº 1, de Janeiro 2012. Para recordar, aqui com fotos ilustrativas, no dia em que sai o nº 5 e vai para o ar a segunda emissão do programa de rádio Pedal de Prata, em directo às 22h. Um jornal em expansão, de facto.

Quero explicar-vos como se pode melhorar a performance da bicicleta poupando dinheiro e contribuindo ao mesmo tempo para um planeta mais limpo e fofinho, a começar pela nossa própria bicicleta. É uma técnica win/win onde nada nem ninguém sai a perder, excepto o nosso ego caso goste de armar ao pingarelho. As baleias, se falassem, agradeceriam.

A corrente de transmissão (vulgo, corrente da bicicleta) é a primeira vítima do aspirante a mecânico mas também do ciclista incauto ou até hipocondríaco com a “saúde” da sua bicicleta. Basicamente é a cobaia perfeita para os nossos primeiros impulsos experimentalistas. No momento em que decidimos fazer algo para melhorar a performance da nossa bicicleta, sendo que isto acontece normalmente quando nos fartamos de estar sempre e só a limpar e puxar brilho à dita, optamos invariavelmente por despejar óleo na corrente. Literalmente “despejar”, mesmo que seja em várias ocasiões e não de uma só vez. Falo na primeira pessoa do plural porque passamos todos por isso, nós os amantes da bricolage. Faz parte! Além disso compreende-se a escolha, quase obsessiva, pela corrente. Para alguém que deseja começar a mexer na bicicleta além do paninho húmido e da cera para puxar o brilho, sistemas como os travões e as mudanças são aparentemente demasiado complexos e o bom senso recomenda a estarmos quietos, porque sabe que podemos deixar as coisas pior do que estão.

Não querendo correr esse risco, pensamos: o que posso então fazer? Corrente! Lubrificar a corrente! Tal acção, note-se o entusiasmo nos pontos de exclamação, deixa-nos satisfeitos. Tudo parece inofensivo e convincente de que estamos a fazer bem à bicicleta. Bom, estaremos antes de mais a fazer bem à indústria petroquímica consumindo excessivamente os seus produtos, depois estaremos a ajudar a indústria das bicicletas e por último, sim, a fazer bem à bicicleta. Mas não à nossa.

Excesso de óleo na corrente faz com que toda e qualquer poeira que paire no ar fique lá colada. Muita poeira junta forma uma camada escura, negra, pestilenta e muito desagradável. Quem diz poeira podia dizer pior: grãos de areia, cabelos, todos os detritos que por aí andam e que, juntos numa pasta que cobre a corrente e se acumula por onde ela passa, só contribui para o seu desgaste. Basta pensar nos grãos de areia a serem moídos entre a corrente e a roda dentada, grão a grão...lá se vai a corrente.

Como mecânico, são muitas as vezes que recebo bicicletas de clientes onde é difícil distinguir os elos da corrente entre si, de tão cobertos que estão por uma camada espessa de merda. Nesses casos, o que faço é despejar uma boa quantidade de desengordurante e deixá-lo actuar um pouco para depois começar a remover as camadas em excesso. É um trabalho moroso e sujo, uma espécie de arqueologia da corrente. Assim que nos livramos da sujidade e conseguimos ver a corrente tal qual ela é, devemos perguntar-nos: será mesmo necessário voltar a lubrificá-la? Nem sempre é necessário fazê-lo, uma vez que a camada em excesso que se acumula à superfície protege o óleo que envolve o interior dos elos. É uma decisão que deve ser ponderada com algum cuidado e conhecimento de causa, mas para quem gosta mesmo de pôr óleo na corrente à desgarrada, então, o procedimento a seguir deve ser: 1) limpar a corrente o melhor possível; 2) colocar óleo novo e; 3) sempre, mas sempre passar um pano para remover o excesso. Caso contrário não tardará a salpicar de pintas pretas a roda traseira, algo muito desagradável para quem gosta de ter a bicicleta limpa, assim como a roupa.

Convém ainda limpar todos os locais por onde a corrente passa – desviadores, pedaleira, roda livre (ou fixa) – para ficarmos com o trabalho bem feito. Acreditem, se querem perder tempo a tratar da vossa bicicleta, isto é tarefa para vos deixar ocupados durante uma bela tarde de fim-de-semana. Importantíssima informação a reter: limpem o excesso de óleo sempre depois de o aplicar, é suposto a corrente ter um aspecto “seco” e não empapado em óleo, caso contrário não tardará a ficar outra vez como descrito acima.

Não é recomendável pôr óleo novo em cima de óleo velho e sujo, eu faço-o por preguiça apenas quando a corrente já chia por falta de lubrificação, na minha bicicleta claro. É esse o sintoma ao qual devem estar atentos. Se a corrente começar a chiar (algo que dificilmente acontece a quem insiste afogá-la em óleo) está na hora de limpar e lubrificá-la de novo, mas não confundam o chiar da corrente propriamente dita com o ruído provocado pela fricção desta com os desviadores, nesse caso é só sinal de que a mudança está mal metida.

Mau exemplo... cortesia bez_uk
Bom exemplo... cortesia bostonbiker.org
Very Dirty Bike Chain