quarta-feira, junho 18, 2008

Os outros pedais da bicicleta

Rua Dom Pedro V - Bairro Alto, Maio 2008

Ninguém toma a sério a bicicleta como eventual substituto do automóvel na crise de energia que atravessamos, que nos atravessa. A bicicleta é resignação, fleuma, ginástica, infância revisitada, revivida (mais como sonho do que como prática), humor, euforia dominical de carolas que vão «pescar» a sua caldeirada a vinte ou trinta quilómetros da cidade. A bicicleta poderá ser a pedalada contestação dos amigos da Natureza. Para nós, os escravos do volante, ela não passa de mais uma ideia que nos faz sorrir. Nada substituirá, no nosso apreço, o automóvel. Nem no trabalho, nem no lazer. Por enquanto... Mas a bicicleta tem outros pedais que não podemos ver. Movido pela necessidade, esse «tubular engonço», como em jeito barroco uma vez lhe chamei, desenrola quilómetros bem menos alegres do que as tiradas que nele sonhamos fazer. A bicicleta pode ser o mundo às costas: serra de carpinteiro, caixa de ferramentas, cesto de padeiro. A bicicleta pode ser a cruz às costas. Para um renovado olhar sobre a bicicleta, aqui transcrevo, sem mais oitos, o «Apelo Angustiante» que há anos, por ocasião das grandes cheias na região de Lisboa, apareceu nos jornais:
«O meu marido saiu de casa no dia 25 de Novembro para procurar trabalho no Carregado ou no Barreiro, levava: uma bicicleta a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro, vestia calças azuis de zuarte, camisa verde, blusão cinzento, tipo militar, e calçava botas de borracha e tinha chapéu cinzento e levava na bicicleta um saco com uma manta e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo e uma panela de esmalte azul. Como houve as inundações e não tive mais notícias, já estou alarmada e já espero o pior. Estou aflita, eu e os meus dois filhos.»
(Alexandre O'Neill in A Capital, 5 de Fevereiro 1974, compilado em Coração Acordeão, O Independente, 2004 - série Inéditos de Imprensa)

É espantosa a actualidade de alguns pormenores deste texto de Alexandre O'Neill, escrito pouco tempo antes da "revolução das Chaimites", já que falamos de bicicletas e automóveis, que conduziram literalmente à revolução dos cravos, essa sim.
Esse «tubular engonço» como o autor lhe chamou, foi o jeito barroco encontrado para fazer, passe a redundância, o Elogio Barroco da Bicicleta:

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

(A Saca de Orelhas, 1979)

Estes textos foram alegremente copiados do blogue Poesia distribuída na rua, de Rui Almeida. =)


1 comentário:

Anónimo disse...

Parece-me interessante divulgar neste seu espaço a iniciativa da SCML, com a particularidade da prova de bicicleta que não deixa de ser mais uma acção no dia 6 de Julho para reforçarmos a mobilidade deste meio na cidade de Lisboa.

Detalhes em: http://510anos.scml.pt/